Política

Deputado propõe restrição de produto que quase matou Urach

Publicado dia 09/03/2015 às 08h59min
Em sua proposta, o deputado ressalta que o produto é derivado do petróleo e vem sendo usado na produção da indústria de plástico.

O deputado federal Carlos Bezerra (PMDB) apresentou, no início de fevereiro, um projeto de lei que restringe a venda de polimetilmetacrilato, mais conhecido como Metacril, para uso em cirurgias plásticas estéticas ou reparadoras. 

O uso indevido do produto foi tema dos principais veículos de comunicação nos últimos meses, após a modelo e apresentadora Andressa Urach ser internada em estado grave durante o tratamento de uma infecção causada por complicações do procedimento estético.

Em sua proposta, o deputado ressalta que o produto é derivado do petróleo e vem sendo usado desde a década de 1940 na produção da indústria de plástico.

Já a partir de 1980, o Metacril começa a ser usado na área médica, em produtos odontológicos e ortopédicos.
"Ainda são comuns casos de problemas graves com pacientes que se submetem a tratamentos com profissionais pouco habilitados, ou mesmo realizados por leigos, não médicos"
Em seguida, segundo o projeto de Bezerra, o produto começou a ser aplicado em cirurgias plásticas estéticas e reparadoras – especialmente no caso dos pacientes vivendo com HIV/Aids, que desenvolvem lipodistrofia (alteração na distribuição de gordura do organismo).

“Pela proposta, a venda do produto polimetilmetacrilato para uso em cirurgias plásticas estéticas ou reparadoras fica restrita somente a médicos com especialização em cirurgia plástica e treinamento em bioplastia ou a clínicas que possuam, em seu corpo clínico esses especialistas”, afirmou o parlamentar.

Segundo Bezerra, os efeitos nocivos do produto já vêm sendo discutidos nas instâncias relacionadas à saúde pública. Em 2007, por exemplo, após amplo debate e manifestação do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, a Anvisa proibiu a manipulação da substância em farmácias.

“Apesar de haver várias outras normas infralegais que tratam do tema, ainda são comuns casos de problemas graves com pacientes que se submetem a tratamentos com profissionais pouco habilitados, ou mesmo realizados por leigos, não médicos. Por isso, acredito que cabe restringir a venda do produto aos profissionais comprovadamente habilitados para seu uso, como forma de se tentar evitar novas tragédias”, disse.

O cirurgião plástico e professor da UFMT, Michel Patrick, que já tratou de pacientes em Cuiabá que usaram o Metacril Casos em Mato Grosso

Segundo o cirurgião plástico e professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Michel Patrick, o Metacril é um produto que não é biodegradável, não podendo ser absorvido completamente pelo organismo. 

“Pode somente inflamar, ficando vermelho, pode formar nódulos ou pode ter a necrose da pele, que leve a infecções, com foi o caso da Andressa Urach. Isso porque o produto é puro e resistente e atrapalha a circulação sanguínea, o que predispõe a criação de uma camada de bactérias que ficam em volta desse produto”, afirmou.

O professor afirmou ainda que a modelo usou cerca de 400 ML do Metacril, o que seria 200 vezes a mais do limite permitido. 

“Ela fez algo que é ainda pior. Porque sabemos que se usamos o Metacril e depois outro produto, as chances de reativar o Metacril e essas bactérias que estavam lá formarem uma nova infecção é bem maior. E ela fez justamente isso. Usou o Metacril e depois usou o Hidrogel. Os dois entraram em contato e virou essa bomba ambulante. Por sorte ela sobreviveu, mas essas infecções graves podem levar a óbito”, disse.

O cirurgião cuidou de dois casos parecidos em Cuiabá. Segundo ele, ambos fizeram o procedimento em clínicas clandestinas.

“Fui um dos médicos que tratou essa paciente. Ela fez a injeção do Metracil em outro Estado, com profissionais que não eram médicos, em uma clínica clandestina, e deu necrose nos dois glúteos. No tratamento foi preciso fazer enxertos, "O grande problema é que a pessoa que vende esse tipo de produto sempre diz que é bom, inerte, que não vai ter problema" ficaram cicatrizes e a pele nunca mais será a mesma. O tratamento levou quase um ano e três meses em um hospital aqui de Cuiabá”, afirmou.

“Também tratei um paciente que fez a aplicação no pênis. Ele estava com uma necrose no órgão por ter colocado Metacril. Ele quase perdeu o órgão. Tivemos que reconstruir o pênis dele”, contou.

Para Michel Patrick, o caso da modelo Andressa Urach e o projeto de lei do deputado Carlos Bezerra servem para ampliar a discussão do assunto, fazendo a sociedade conhecer os malefícios de produtos como Metacril e Hidrogel.

“O grande problema é que a pessoa que vende esse tipo de produto sempre diz que é bom, inerte, que não vai ter problema. Aí, quando começa a ter alguma complicação, as pessoas não gostam de falar sobre isso, porque a pessoa não quer ser exposta. Mas a partir do momento que se propõe uma lei, abre margem para discussão. Acho isso importante”, disse.

“No projeto, ele abre o uso do produto para médicos que tenham formação em bioplastia. Acredito que o mais correto seria deixar somente para cirurgiões plásticos e dermatologistas, que são especialistas que trabalham na área estética. Iria deixar a lei mais correta”, completou.

Fonte: Mídia News